Estou cavando um buraco

sexta-feira, 31 de agosto de 2012


Fui diretamente ao centro de cada golfinho assassinado e me desfiz em cinco toneladas de atum. Girei a terra sobre um eixo tresloucado que desprovia-me de luxo de odiar todo esse amor. Uma raiva que cuspi se tornou um turbilhão e pressenti haver mais lixo que jamais pude prever. Me senti o pior do egoístas por não ter nenhuma pista sobre o quanto está distante o elefante na tevê Eu cavei , eu sei, todos nós cavamos. Encontrei um velho amigo. Ele me contou tudo que aconteceu na dele e eu disse: ‘eu estou cavando um buraco’. E ele disse: ‘eu sei, todos nós estamos’. Encontrei um presidente de um país pobre numa reunião sobre a utilização de recursos públicos para construção de um viaduto que ligaria dois bairros e permitiria a passagem mais ligeira de veículos Automotores e eu disse: ‘eu estou cavando um buraco’ Ele disse: ‘eu sei, todos nós estamos’. Encontrei todos os meus ex-namorados sentados no mesmo bar bebericando uma bebida barata babando de babaca. E eu me sentei e disse: ‘eu estou cavando um buraco’ Eles disseram: ‘eu sei, todos nós estamos’. No momento em que toda a vida foi sugada de mim e eu senti um vazio, no fundo do poço. Apelei para um canção para um senso mínimo de uma estrutura válida na minha vida e cantei. Eu cavei, eu sei, todos nós cavamos. Fui diretamente ao centro de cada dona-de-casa espancada e me desfiz em cinco galões de lágrimas contidas. Girei a terra sobre um eixo tresloucado onde era aceitável o luxo de ter medo da minha vida. Uma crença que desfiz se tornou um redemoinho e engoliu qualquer chance de ver a mim mesmo por inteiro. Me senti o pior dos egoístas por não ter nenhuma pista sobre o quanto está distante o elefante no banheiro. Eu cavei, eu sei, todos nós cavamos. Não vá dizer que essa é sua última chance, não é, nunca é, por algum motivo. O mesmo motivo que me leva a você. Que me leva a querer. Que me leva a nunca saber o motivo.



Conversas paralelas

sábado, 25 de agosto de 2012


Os dois estavam sentados em um trilho de trem. Ela, uma garota normal. Ele, um garoto qualquer.
- Eu queria ter uma bicicleta. – Disse a garota, que se chamava Marrie.
- Por que ter algo tão simples se pode ter o mundo? – Disse o garoto, que se chamava Argus.
- Porque uma bicicleta me levaria até você...
- Não há motivos para vir até mim.
- Vem morar comigo?
- Aonde?
- Aqui no meu coração. – E então ele levantou. Saiu. Sem rumo, andou por vários dias. Chorando, sem nem ao menos tentar entender.
- Tão fanático pelo amor que se esqueceu que ainda tinha alguém que lembrava dele...  – Dizia Marrie, observando as flores.
- Tão amorosa que se esqueceu que eu só queria ela... – Ele respondia em pensamentos altos, respondia para o ar.


Aniversário

quinta-feira, 16 de agosto de 2012


 Olhos fechados, um leve sorriso. Careca, recém-nascido naquele mundo. Lindo, gordinho, saudável.


 Menos alguns anos de vida...

 Já tinha crescido com cabelos loiros, olhos tão escuros que detalhavam a sombra da morte. Alegre, simpático, não parava quieto.

 Menos alguns anos de vida...

 Seus cabelos ficaram escuros. Sua visão já começava embaçar um pouco. Meio gordinho, gostava de fazer piadas, muito mais quieto que antes, já não era agitado.

 Menos alguns anos de vida...

 Começou a escrever com sete anos. Não parava mais, adorava. Gostava de escrever sobre seres místicos, magia, tudo que se podia imaginar.

 Menos alguns anos de vida...

 Deitava na chuva, caía na risada. Na sétima série escrevia sobre mistérios. Gostava de rodar.

 Menos alguns de vida...

 Emagreceu muito. Parou de escrever. Observava o tempo, cantava e dançava. Foi quando começou as aulas de balé. Logo mais tarde começou com ginástica rítmica e street dance.

 Menos alguns de vida...

 Já ficava parado, gostava de ver as pessoas correndo. O mundo era grande, os estudos também eram gigantescos. Repetiu a escola duas vezes, cursando o segundo ano do ensino médio com dezoito.

 Mais alguns de vida...


 Voltou a ser uma criança.


Distante

quinta-feira, 9 de agosto de 2012


Dessa vez eu não estava deitado, estava sentado na frente de um computador. Te encontrei, nos encontramos, nos conhecemos
 Foi tudo tão simples e uma garrafa de vinho mudou tudo. Um vinho barato, qualquer um servia.
 Dessa vez eu estou com o cigarro nas mãos, ouvindo uma música que me lembra você. Queria te ver.
 Nós somos de outros mundos, conhecemos outras realidades, opiniões diferentes.
 Nem nos vemos direito... Quem somos?
 Te procurei nos meus sonhos, me questionei e não te achei. As respostas nada me valiam.
 Da outra vez estávamos juntos de novo, dentro de um cinema. Acordei desse sonho, me vi junto a ti. Te encontrei finalmente, não acha? Decidimos manter.
 Da outra vez os dois estavam fumando, surreal pra mim, não sabia que você também era assim. Demais pra pensar, demais pra entender. E lá vai mais vinho... Mais uma vez bebendo junto a ti, entendendo e compreendendo quem era você. Conversando com os amigos. E quando você se foi, chorei um pouco, não queria te largar, não queria te deixar.
 Um sorriso ou dois, os encontros começaram mais freqüentes. Claro, com mais bebidas. Sempre os dois juntos, fumando aquele cigarro negro de canela e da ultima vez foi o cigarro de menta. O meu favorito.
 E pela ultima vez estamos aqui, eu na frente do computador e você no celular. Conversando apenas, eu com o meu cigarro e você com o seu trabalho. Ambos distantes, ambos juntos.
 O que aconteceu dessa vez para os encontros não se tornarem freqüentes?
 Por que sumimos?
 Aonde fomos?
 Cadê você?


Solidão

terça-feira, 7 de agosto de 2012


Devastado em algum lugar, caído, morto, vivendo sem rumo e aguardando o momento certo para ser levado pela morte.
O que me resta esperar?
 Em um deserto qualquer me perco em pensamentos, anseio pela morte, procuro em algum momento alguém para me ajudar. Estou sozinho. Cadê os meus amigos?
 Percebi hoje que no dia de minha morte não havia ninguém para chorar, não havia ninguém para me salvar.
 A morte demora a me buscar, ela quer ver meu sofrimento. Cadê minha família? Alguém morreria para me salvar? Alguém ao menos se importaria com o jeito que morri?
 Relembro de cada lembrança, reparo nos pequenos detalhes desse flashback que estou tendo.
 Sinto meu corpo formigando, adormecendo, acho que a morte finalmente chegou. Parece que tem alguém me puxando, para onde meu espírito vai? Fecho os olhos e adormeço, não quero ver o rosto dela...
 Acordo em um lugar todo branco... Espere! Alguém me salvou?
 Fico feliz pela morte não ter me abandonado, fico triste por ter morrido sozinho...


Um rei e o zé

quinta-feira, 19 de julho de 2012


Andando calmamente pela rua encontro com um rei. Aqueles reis que vemos no dia a dia. Um rei normal. Ele me disse que quem deixa ir tem pra sempre... Então ele me deixou ir. Deixou-me sozinho. “A pressa esconde o que já é evidente”, dizia o rei, mas não vi nada! Apenas observando um vazio, procurando as respostas para as perguntas, procurando soluções para os problemas... Nem sempre devemos andar assim tão Zé, tão normal.
 O rei me mostrou o caminho certo, me aconselhou seguir pelo errado e me disse que eu devia seguir apenas o caminho que eu queria. Qual seria esse caminho? Será que eu poderia ser forte o suficiente para agüentar todas as consequências?
 O que foi que me fez assim tão Zé? Eu juro que não é drama, mas eu queria ter outra filosofia, pois não nasci para conversar com o rei. Às vezes eu queria sumir... Sumir e viajar para dentro do meu universo, criar uma realidade diferente.
 Continuei sem ver nada. O rei não me disse o que seria aquilo de diferente que eu devia procurar. Ele apenas me disse com suas sábias palavras que só se tornou rei por pensar assim tão diferente.
 Não vi nada...
 E foi aqui do meu lado que eu encontrei o que me fazia tão diferente. Eu vi você.



Inspirado na música Um Zé e o rei, Apanhador Só:


O nada

segunda-feira, 9 de julho de 2012


Quem é o nada? Por que nada existe? Cadê o nada? Onde está tudo?
E eu ouço as leves palavras do nada, o além me faz diferente, eu escuto as vozes que gritam para o nada e nada me vem à cabeça.
Observe o nada e nada verá, nada saberá, nada descobrirá.
Quem sou eu? Eu sou nada... Sou tudo, eu sou deus, eu sou a minha sobrevivência, eu sou nada.
Enquanto viajo nesse sistema, enquanto observo, eu estorvo a mente. Olhe diretamente para os meus olhos, sinta o ar viajando pelo sistema do nosso planeta, sinta as vontades... Apenas observe parado, monstruosamente obcecado por alguém. Um alguém qualquer. Um nada.
Por que nada existe? Porque se fosse existir o nada seria eu, no entanto eu sou o nada. Então, o nada existe, atribuindo a mim aspectos do nada. Eu sou um nada, eu sou o nada. Eu sou o melhor nada de todos.
Às vezes enquanto fico correndo na rua, vejo a chuva cair, dançando alegremente com todos os movimentos, olhando o universo enquanto nada gira ao meu redor.
Eu corri do nada. Eu corri de você.
Cadê o nada? O nada não está... O nada não consiste. Em nada se pode tocar, nada se pode alcançar.
Onde está tudo? Tudo não está... Tudo envolve... Tudo vive. O nada está em tudo, o tudo está no nada.
Observe o nada e nada verá, nada saberá e nada descobrirá. No entanto, reflita no nada. E tudo irá descobrir, sem nada apenas.


Vazio

terça-feira, 3 de julho de 2012


O mundo passa repleto de coisas diferentes. O universo conspira contra todos. As ruas ficam cheias de lágrimas. O pássaro observa.

Sozinho, num quarto escuro. Uma música suave, uma luz no fim do túnel.

Às vezes dá vontade de te procurar, saber como você está. Às vezes dá vontade de querer jogar todas as lembranças fora, mas fazer o que?

Seria legal ter notícias suas, te ver de novo, saber um pouco sobre como você está... Acho que eu me sentiria menos culpado, entende?

Mesmo que você queira alguém pra amar, desculpa, hoje não vou estar. Não vai dar... Eu aprendi a te ver apenas como uma pessoa, mais um que passou.

Estou calmo, ainda.

Estou tomando remédios por sua causa, isso está me fazendo ver o mundo melhor.

Deu vontade de falar: “Fica um pouco mais, por que sair? Ainda lembra-se de tudo? Que bom...” Não te impedi de sair, não te obriguei a entrar... Custava não me machucar tanto?

Quando sou eu quem me machuco, eu sei dos limites, sei até onde vou agüentar, mas quando são outras pessoas que machucam... A ferida entra da pior maneira, permanece ali, não seca, fica ao Sol, ardendo.

Ainda estou bem...

E de novo estou sem sentimentos, obrigado.


Mas tudo bem...

terça-feira, 19 de junho de 2012


Perdido nos traços, iludido nos abraços. Com falta de ar.
Hoje em dia, as lágrimas escorrem, a verdade fala, o coração vibra. Não sei mais mentir e esconder o que sinto.

Fiquei só, perdido, calmo, sem graça. Não pude cumprir a ultima promessa. Prometi que ficaria bem... Não fiquei e não estou.

Não existe nada a meu redor, minha vida não tem mais sentido. Seus olhos verdes me feriram tanto, perfuraram meu coração... Você entrou nos meus sentimentos. Obrigado por ter dado uma esperança para o ser desumano que vivia dentro de mim.

Quem se importa comigo? Quem me viu chorar?

A chuva me lembra você, por causa do primeiro encontro que tivemos. Uma garoa fina, sentados numa passarela, um observando o outro, um falando para o outro... Não consigo ficar sem chorar quando chove. Não consigo me apaixonar...


Um pouco do momento

domingo, 17 de junho de 2012


Dilacera o corpo, corrói a alma, destrói a vida. Evita o cérebro, queima a garganta e lhe tira a consciência. É deste veneno que estou precisando... É este veneno que eu quero.
 A distância que percorre. O amor que me destrói. A loucura que me persegue...
Dê-me esse copo de veneno, que passa por todo o corpo, deixa tonta a cabeça, tudo roda e se torna mais bonito. Passa-me essa garrafa de felicidade, me faz virar ela todinha. Tira-me a consciência, faça tudo morrer...
Não tenho medo mesmo, não tenho medo de morrer com esse veneno.
Esse veneno que me fez ver a felicidade, essa garrafa cheia de verdade.
Ao pior momento me dê este veneno maldito que surgiu das sombras, que veio me atormentar.
Faça-me viver enquanto estiver morrendo, faça-me acreditar que este veneno alcoólico não estará me destruindo...
Faça-o queimar o corpo, destruir a alma... Este veneno que me ama. Este amor venenoso que você deixou em mim...
Dê-me um trago desse veneno sólido, faça-me sentir essa droga. Faça-a invadir minha mente, apenas por este momento.
Este veneno supremo... Este amor impiedoso.
Essa droga maldita... Essa sua existência que me fere.


O tempo

sábado, 9 de junho de 2012


O tempo que aqui voa. O tempo que aqui passa. O tempo que ali observa.
O tempo que faz valer a pena, o passado do tempo que nunca existiu. O tempo do futuro meu, o tempo que me mostra a realidade. O tempo do meu presente passa tão depressa, em segundos agonizantes que ultrapassa os seus limites.
O tempo que ali observa tudo marcado, jamais apagado. O tempo não destrói a alma, o tempo que lava a chuva. Observe o tempo te observando...
O tempo que faz a tempestade, o tempo de uma flor. O tempo que me fez sorrir, o tempo que nos fez chorar. O tempo que você dormia no meu colo, o tempo em que eu te via feliz no balanço.
O tempo que nos fez crescer, o tempo que nos auxiliou...
Foi o tempo que nos mudou.





A escola

terça-feira, 29 de maio de 2012


As paredes são pintadas de duas cores: a parte de baixo é verde, a de cima é tão escura quanto à sombra de meus lúcidos pensamentos. O chão é cinza como a minha imaginação que voa por todos os mares e navega por todas as nuvens. Na minha frente fica um quadro cheio de ideias que são escritas e apagadas, ideias que movem o futuro. A luz clareia toda a minha alma, atordoa toda a minha visão e faz meus sonhos embrulharem em caixinhas de presente. A porta abre para todos os futuros, ela também fecha o ar e nos tranca num mar de histórias de idealizações. As cadeiras são verdadeiros tronos postos para os futuros reis e rainhas aprenderem a governar o seu mundo de forma justa. As mesas são infinidades de artistas colocadas como apoio, não só para se segurar, mas também para levantar os sonhos que se foram. Os cadernos são os mais inusitados livros que contém as marcações pessoais de cada um, as canetas são as verdadeiras varinhas que com sua magia dá vida à emoção e ao sentimentalismo. E os professores, ah, finalmente chegamos neles, são eles os verdadeiros deuses que encaminham o futuro de um mundo melhor.



Sorriso quebrado

domingo, 20 de maio de 2012


Uma doce música que me alegrava todos os dias, vários sentidos, vários dizeres. Uma realidade que me fazia chorar, um sentimento diferente de tudo que eu já tinha sentido.
 Uma lágrima que se tornou diária, sem sentido, sem palavras. Uma verdade que me fazia sorrir, um sentimento imaginário que você esgotou.
 Um sorriso que era colocado todos os dias, um rosto bonito, uma boca perfeita. Um corpo que eu jamais iria esquecer. Um corpo que sumiu.
 Você me fazia carinhos, aquecia meu corpo, aquecia meu coração. Fez um mundo bonito girar pra mim, mas... Tão distante.
 Você me olhava nos olhos, me fazia sorrir, me alegrava. Fez um universo se mover dentro de mim, fez um local perfeito...
 Uma janela fechada, um quarto bagunçado, deitado na cama. Sozinho. Não tenho mais ninguém, você se foi... Deixou-me, largou-me, sumiu do meu mundo.
 Meus planos... Minhas vontades, minhas escritas, a atenção que eu te dava. Não tinha porque reclamar. Eu te amei com todo o carinho.
 Estou quebrado, partido, corrompido, destruído. Virei mais um qualquer que passou por você.


Capitalismo

quinta-feira, 17 de maio de 2012


 As ruas todas sujas de sangue, o mar, os rios, o oceano estão sem vida, às árvores só tem as folhas secas e o que restou dos animais estão sendo criados em laboratórios.
 Tem uma sombra negra rodeando todas as noites as mentes das pessoas, doenças já não tem cura, a fome se tornou obrigatória e a humanidade tem seu rosto deformado.
 Ninguém mais pode andar pelas ruas, o Sol está destruindo a pele do ser humano, a Lua não move mais os mares, os planetas estão explodindo...
 E então alguém, ironicamente, grita: “Seja bem-vinda, Burguesia, ande pelas ruas mostrando seu dinheiro como fazia antes.”


Uma vida perdida

sábado, 12 de maio de 2012


Deitado o dia inteiro, naquela cama que parecia não ter fim. Depressivo, angustiado e sem vontades de ver a infinidade de oportunidades que o mundo iria me oferecer. Orgulhoso demais para me render ao pecado, cego demais para ver os deuses rindo da minha desgraça. Não era falta de forças, era falta de vontade.
 Mais um morto, sem ter como renascer, apenas mais um caído na esquina; bêbado e sem necessidades, menor de idade e se drogando com tudo que via pela frente. Aqueles espíritos faziam parte de seu passado, pobre alma, tendo alucinações a cada instante. Sua mão se desprendia de seu coração, sua verdadeira face estava ocultada dentro de tantos sentimentos... Era demais ver aquilo!