A
chuva estava caindo, era um dia normal... Um dia cinza e escuro aparentemente
normal para os que olhavam de longe. Ninguém percebia... Não era e nunca foi
uma chuva qualquer, até eu demorei pra perceber. Desde que tive a minha
consciência de volta, foram longos 10 anos. 10 anos sem saber quem eu era, 10
anos sem consciência. E então percebi aquilo, quase que pela primeira vez eu
estava deitado na chuva. E podia ouvir... Quando a chuva batia no chão, era um
grito, dava pra ouvir o barulho, era um grito desumano. As gotas das chuvas não
eram simples gotas, eram seres humanos. Sempre foram humanos e até nas chuvas
que estão por vir, são seres humanos. A cada gota que está caindo da nuvem é um
ser humano doente, um ser humano passando fome, um ser humano morrendo... E
quando elas batem no chão é o ser humano gritando! Porque é nesse momento que
eles podem interferir. Quando chegam a seu detalhe de simplesmente bater no
chão, é quando eles podem gritar. Simplesmente gritar... E nunca paramos pra
ver, mas nunca ficamos deitados na chuva. Nós, humanos, nunca paramos pra
deitar debaixo da chuva... Sabe por quê? Porque não queremos ouvir o sofrimento
dos outros. Se as gotas de chuva bater em nosso corpo, nós a ouviremos tão
perfeitamente que sugaremos uma parte dela. Uma parte daquele sofrimento se
torna nosso sofrimento. Por isso que nós nunca paramos pra ouvir a chuva, nunca
paramos pra ser uma parte dela... Em raros momentos isso acontece e quando
acontece nós ficamos lá de má vontade.
Quem nunca ficou bravo por ter pegado uma chuva forte? Ou, como eu
prefiro dizer, um sofrimento forte. É assim que somos... Somos tão humanos que
nem percebemos que estão presos a nós mesmos. O capitalismo que deu esse
sofrimento, graças a ele veio às doenças. E então eu pergunto: Se o capitalismo
lhe dá liberdade, por que ficamos tão presos ao dinheiro?


